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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 24.05.17

Anexo | Os livros que nos escolhem

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Os livros que nos escolhem

 

Por vezes o processo de escolha de leitura é abreviado. Nem sempre o leitor compulsivo tem de passar pelas provações das indecisões do livro que se segue, algumas delas referidas no meu último artigo. Há milagres, meus amigos! Quem nunca foi escolhido por um livro?

Já me aconteceu algumas vezes e é estranho estar a escrever sobre algo que não consigo explicar, que soa um bocado lamechas e romântico, sendo eu uma leitora tão racional. Mas a verdade é que há livros a que me liguei pelos mistérios da paixão, que me arrebataram de modo irracional fazendo-me ficar acordada pela noite dentro até haver páginas para ler. Livros para os quais, admito, no meu perfeito estado não olharia duas vezes. Mas enfim, não é assim qualquer bonita história de amor? Estranha, inexplicável, impulsiva e perfeita.

Eu sou aquela leitora que gosta de sofrer. Gosto de histórias cruéis, reais, que fico a mastigar mesmo com o livro fechado, durante o dia, por exemplo, antes de regressar à leitura em casa, à noite. Gosto da verdade, apesar de saber que nos livros é tudo (ou quase tudo) mentira, mas a boa ficção é aquela que nos engana sem piedade. Aquela em que acreditamos. Se o leitor gosta de ser enganado? É uma boa ideia para um próximo texto.

Mas quando se levam muitas milhas de leitura, como tenho acumulado ao longo dos anos, já não é qualquer novidade que me arrebita o espírito. Na verdade, as tais milhas têm-me ensinado que, se calhar, mais vale apostar nas leituras a que o tempo e os leitores conferiram valor, do que nas capas convidativas dos escaparates. Até porque o que para mim é um enorme prazer, para quem está no ramo é um negócio como outro qualquer, e a verdade é que me sabe bem recuar até ao fundo das estantes das livrarias. Para falar verdade, e sem querer armar ao pingarelho (seja lá o que isso verdadeiramente significa, mas todos percebem), basta-me ir ao fundo das minhas próprias estantes e encontrar tesouros escondidos e esquecidos.

 

Anexo | Os livros que nos escolhem

 

E já aconteceu, em alturas de neura (não só pelo rumo das leituras, mas pelo da vida em geral) deitar-me a desmanchar ordenações alfabéticas na ânsia de um encontro feliz, ou de recuperar uma memória de um encontro feliz com um livro.

Nessas alturas encontro tesouros. Sim, aqui na minha própria casa, há livros que me lembram o beijo que recebi junto com o dito embrulhado, há títulos que me marcam porque a conjugação de palavras é tão graciosa nesse dia menos feliz, mesmo que toda a vida isso me tenha passado despercebido. E depois há aquele momento em que um livro se abre e mostra a primeira frase. E essa frase é tudo o que precisamos de ler, porque se encaixa de modo exemplar tornando o dia mais azul (é que eu gosto muito de azul, mas pode ser qualquer cor de que gostem muito). E como parar? Como não prosseguir para a frase seguinte esperando por mais azul? E sigo. Separo o livro escolhido mas sei que a escolhida sou eu, e essa ideia é tão bonita quanto tonta, pelo menos para a leitora racional que digo que sou, e levo-o para o meu canto preferido de leitura, puxo da manta e leio mais umas frases enquanto penso no chá de rooibos que vou fazer no fim do primeiro capítulo.

Começa a chover e fica tudo mais perfeito. Acendo uma vela com perfume de figo e ligo o meu candeeiro de leitura. As horas passam e o dia faz-se noite. E eu sou do livro que me escolheu e não o contrário. O livro manda e eu cedo, lendo-o com a entrega a que me obriga. Adorando cada palavra.

De vez em quando olho os livros espalhados no chão, a estante desarrumada, e o local de onde fugiu o livro que tenho nas mãos. É uma história de amor extremamente desagradável, previsível e entediante para uma leitora racional e exigente como eu. Mas quem não precisa de um colo que faça sonhar de vez em quando? Um pequeno prazer secreto que nos pode deixar escapar uma lagrimita ou duas? Devoro-o sem pensar em mais nada. E só isso, em certos momentos da existência de uma pessoa (leitora ou não) é tudo o que se pode desejar. Não pensar em mais nada.

 

 

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Publicado em Inominável nº 7
por Márcia Balsas autora do blog Planeta Marcia

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