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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qui | 06.07.17

Anexo | Livros no Verão

Anexo | Livros no Verão

 

Todas as Estações do Ano são boas para ler, mas o Verão é, para a maioria das pessoas, sinónimo de maior disponibilidade. Mais horas de luz natural e temperaturas agradáveis fazem os livros sair à rua, e dão aquela sensação boa de que o dia tem mais horas para ler. E há que as aproveitar todas!

Associadas ao Verão estão, inevitavelmente, as férias. Só de pronunciar esta palavra mágica, férias, começo logo a imaginar uma selecção de leituras para esses dias em que as horas são todas minhas. As pilhas de livros são imensas e utópicas, mas essa parte do planeamento, mesmo que um pouco delirante, é uma fase crucial para entrar no ritmo do que pode ser entendido como maratona de leitura. Enfim, é uma espécie de estágio para o que aí vem, o que significa basicamente andar com a cabeça no ar e ser feliz por antecipação. Em resumo, implica que não ouço as pessoas quando falam comigo e que me distraio de todo o género de conversas ao redor, mesmo daquelas em que, supostamente, estou a participar. Quando alguém se dirige a mim é como se eu tivesse acabado de cair aos trambolhões na realidade, não vale a pena disfarçar, adoro o meu próprio mundo imaginado.

 

Anexo | Livros no Verão

 

Todos os géneros literários vão bem com o Verão. Um bom policial vai bem em qualquer lugar, a trama intensa e compulsiva obriga à leitura atenta e nem as brincadeiras das crianças na praia ou na piscina distraem o leitor. Problema: se as ditas crianças estiverem ao vosso cuidado, convém levar alguém para ajudar a tomar conta, de preferência alguém que não seja viciado em livros, vá. E atenção ao sol, muitas páginas sem aplicar protector solar dão direito a escaldão, já para não falar da marca do livro nas pernas. Hilariante, no mínimo. A cereja no topo do bolo dos dias de praia de um leitor compulsivo.

Mas o melhor das férias são as viagens, as que fazemos pelos nossos pés e as que fazemos para dentro dos livros. O ideal é associar as duas.

Gosto de me deslocar de carro, não necessariamente de conduzir, mas da liberdade que o carro dá para descobrir locais remotos (enfim, locais verdadeiramente remotos não será de carro, mas é um meio de transporte que permite personalizar bastante uma viagem), fugir para locais mais calmos, fazer quilómetros para longe da confusão. E para que havemos de querer sair da confusão? Ora, para ler em paz, claro!

Durante muito tempo perdi horas de leitura por enjoar no carro. Era uma situação que me deixava muito frustrada, ver o tempo a passar, desperdiçado sem ler uma linha. Fui fazendo algumas tentativas para contrariar essa condição, sendo que na maior parte das vezes as letras começavam a bailar diante dos meus olhos, confundindo-me. A agonia obrigava-me sempre a fechar o livro, frustrada. Mas nunca desisti. Não me conformava em passar horas de carro em que a paisagem, sempre igual, não era mais do que o cenário para chegar ao destino. Um dia decidi que iria conseguir ler no carro sem ser apanhada pelo enjoo. Meti na cabeça, pronto! E fiz as primeiras tentativas com concentração e determinação. O truque é olhar o livro, apenas e só o livro como se não houvesse mais nada em redor (não é difícil). Convém não levantar os olhos subitamente, nem fazer movimentos bruscos. Já o faço há algum tempo, apenas em autoestrada é certo, e as letras têm ficado no seu lugar. No fim da viagem posso fazer a média das páginas por quilómetro, mas só por brincadeira, porque o que importa mesmo é que li, poucas ou muitas páginas, o tempo foi utilizado no que mais gosto de fazer.

Estou a adiar a escolha do género de livros mais adequados às férias desde o início do texto. Não vale a pena contrariar a tendência natural de querer ler tudo, logo, não consigo definir um “estilo férias”, ou o tipo de livro que vai bem com o Verão. Os livros vão bem com pessoas e com o que lhes apetece ler na altura. Muito bonito, não é? Pois é, mas a questão é que, para mim, o “estilo férias” não existe, e sou uma desgraça a fazer o planeamento das leituras. Se assim não fosse não me acontecia, sempre que vou para fora, querer ler os livros que ficaram em casa. Uma mania que me dá cabo dos nervos. E depois acabo por ler os livros que levei, sempre a pensar nos que me esperam no regresso. Não é fácil para um viciado em livros ficar muito tempo longe da sua biblioteca. Desde que tenho o e-reader e posso levar vários e-books comigo, este problema foi atenuado, pois tenho sempre muito por onde escolher, e não corro o risco de ficar sem nada para ler a meio das férias caso o ritmo de leitura seja superior ao planeado. Mas a verdade é que é tudo muito teórico, na prática quero sempre ler aquele livro que ficou em casa, no seu lugar da estante.

Sofro muito com saudades dos meus livros, confesso. Adoro viajar e ainda bem, caso contrário passava as férias enfiada em casa a ler, era certinho.

Muitas vezes gosto de adaptar a leitura ao local para onde vou, e também preparar a viagem com o auxílio de guias e livros sobre os sítios que quero descobrir. Sim, eu gosto de levar o trabalho de casa feito, tenho fobia de perder tempo em férias, pois o tempo para fazer o que apetece, e só o que apetece, é tão pouco, que quando chega temo sempre não o aproveitar convenientemente. A sofreguidão de querer abraçar tantas coisas (e tantos livros) faz, por vezes, que o suposto descanso seja um bocado cansativo.

Eu acho que nas férias sou mais facilmente personagens, horas a ler sem parar são o bilhete de entrada, por exemplo, nas ruas da cidade de um livro. Visitar Barcelona e ler Zafón é uma experiência inesquecível. Há duas Barcelonas que são uma só, e a imaginada pelo autor vai espreitar em cada rua da cidade velha, os meus olhos vêem a realidade romanceada, e procuro incansavelmente o Cemitério dos Livros Esquecidos. A disponibilidade mental é total e o desejo de cair a pique nos cenários do livro obriga a uma Barcelona única, aquela que levo para casa. Para sempre.

Os livros tornam as viagens especiais, associarão para sempre locais a momentos de leitura. Levar um romance histórico para ler nas ruínas de um castelo, ao ar livre, na sombra de uma árvore, por exemplo, poderá fazer surgir uma batalha no campo vazio que se estende até à linha do horizonte. O verde da paisagem recebe o sangue derramado e consigo ouvir o som das espadas e lanças. Há cabeças decepadas, mortos e feridos. Espero não estar a ir longe demais para as almas mais sensíveis. Como no mundo dos livros há sempre opções de escolha, para os mais impressionáveis de visita ao castelo sugiro uma história de amor, daquelas épicas, se calhar igualmente trágicas, mas mais adequadas aos pequenos corações apertados sedentos de paixão.

A verdade é que todo o leitor gosta de sofrer. Sim, quem é que nunca chorou (sejam francos e não adianta assobiar para o ar), mesmo que só um bocadinho, ou nunca ficou com o coração apertado com os amores não correspondidos, amantes separados pelas guerras ou pelas famílias (outras guerras, na verdade)? E quando o personagem preferido morre? Uma bofetada. A fúria. É mais forte do que nós. Fechamos o livro com ganas de o atirar fora e amuamos, não é? Sim, mas só até o bichinho voltar e nos começar a consumir os pensamentos. Sentimos que temos de saber o que acontece a seguir e, sim, voltamos ao livro, mesmo depois dele nos ter dado um estalo na cara.

Quando tenho tempo livre elimino horários e regras. Sou, todo o ano, escrava de horários e tarefas, numa castradora dependência da ditadura do relógio. Portanto, nas férias de Verão, qualquer hora é boa para ler, seja pela noite dentro ou ao nascer do dia, na companhia dos primeiros sons da manhã. O regresso à realidade é duro, e entrar na engrenagem dos horários deixa-me uns tempos numa sensação de permanente jet-lag. As férias e o Verão são efémeros, como todas as coisas deliciosas da vida, e despedem-se de repente, deixando-me a pensar no tempo em que tão ansiosamente esperei que chegassem.

Portanto, meus amigos, há que planear muito bem o tempo livre. Despeço-me com uma sugestão que se pode praticar não só no Verão, mas no ano todo. Levem livros para todo o lado! Se as temperaturas agradáveis permitem ler ao som do mar ou das cigarras, em piqueniques com amigos, ou em tardes de lazer em família, ler agasalhado não é menos agradável. E como sabe bem ouvir a chuva e beber um chá quentinho!

Para onde forem levem um livro, ou vários, muitos se forem para o fim do mundo! Não corram riscos e invistam sempre nessa viagem maravilhosa que é ler. Aproveitem o Verão e leiam muito!

 

 

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Publicado em Inominável nº 4
por Márcia Balsas autora do blog Planeta Marcia

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