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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qui | 24.08.17

Anexo | Ir até ao fim

Anexo | Ir até ao fim

 

Nem sempre vou até ao fim de um livro. Assumo-o, e é sem culpas que deixo um livro de lado. Porque se a vida é curta para as obrigações que já temos, para quê criar patamares de objectivos no nosso tempo livre? Sim, tempo livre, reparem bem, livre, de liberdade. Querem ser livres nas leituras ou ficar amarrados às vossas próprias teimosias? Se calhar falta a muita gente experimentar a sensação libertadora de deixar um livro a meio, de o colocar de lado numa substituição fria por outro, sem dó nem piedade. Atrevam-se a ser implacáveis. Sabe bem.

 

Sim, eu sei que não é fácil para muitos leitores. Conheço vários que têm por princípio terminar todos os livros começados, e não é raro o desenvolvimento de sentimentos de ódio em relação a certos autores. E digam-me, para quê? Para depois se dedicaram à vingançazinha de criar ódios de estimação, não resistindo à maledicência e espalhando farpas que fazem doer quem está à escuta, e envenenar a própria alma? Sim, que isto da má-língua não torna ninguém mais doce, antes vai recolhendo gente que se torna mais rezingona pelo caminho. Quando se chega àquele ponto da leitura em que ler mais uma página faz mais mal do que bem, é o momento de colocar em prática um dos direitos mais importantes (para mim) do leitor: O direito de não acabar um livro.

Daniel Pennac escreveu um pequeno livro que me marcou muito como leitora. Como um Romance lê-se de uma penada e tem tudo para ser o livro da vida de qualquer leitor. Além dos dez direitos inalienáveis do leitor, do qual faz parte o direito de não acabar um livro, que destaco para este texto, são referidas situações com as quais os amantes de livros se identificarão com facilidade. Em Portugal foi editado pela Asa e, infelizmente, já não é muito fácil de encontrar. Procurem-no com determinação.

Mas, e porque há sempre um mas, também conheço quem tenha uma justificação plausível para prosseguir uma leitura, mesmo quando o tédio faz com que os olhos se queiram fechar e o bocejo seja inevitável. O gosto em aprender coisas novas pode fazer com que, mesmo num livro tortuoso, se encontre um propósito de continuar. Talvez seja excesso de optimismo (se tal coisa existir) sentir que qualquer livro tem sempre um motivo para ser lido, que ir até ao fim terá a sua recompensa pelas coisas que se aprendem pelo caminho. Ou então será uma teimosia disfarçada de um propósito ou, quem sabe, um vício a que se dá um nome bonito.

Bom, mas antes que quem não me conhece tire conclusões precipitadas e assuma que à primeira dificuldade eu jogo o livro fora, esclareço que gosto de livros difíceis e admiro a complexidade. E não é nesses casos (a não ser que se trate de um livro mal escrito) que desisto. Após tantas milhas de leitura é normal que os níveis de exigência se apurem e, quanto a mim, torna-se inevitável não desistir de um livro que não traga algo novo. Um livro tem de ser, acima de tudo, uma boa companhia, tem de apetecer passar a noite com ele e levá-lo para todo o lado. Sim, acontece-me por vezes precisar de parar, o que não significa que não o termine. Pode ser preciso respirar, assentar ideias, ou simplesmente variar. Nessas alturas exerço o meu outro direito preferido: o direito de saltar de livro em livro. Mas isso talvez fique para outro texto.

Leiam livros que vos façam felizes.

 

Anexo | Ir até ao fim

 

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Publicado em Inominável nº 9
por Márcia Balsas autora do blog Planeta Marcia

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