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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qui | 30.03.17

Alice Duarte (ii)

 E DELE AS FOLHAS

E dele as folhas.jpg

Este não é o tempo de ver para além da árvore.
Olho o verde que tapa o horizonte,
a gota de chuva que pende da folha.
Não é este o tempo de voar para lá da árvore,
as asas estão presas à terra por fios leves, leves…
Sonhei que podia quebrá-los.
Têm a firmeza do pensamento
à espera de se dissolverem no húmus antigo.
Dele brotará um novo tronco de mim
e dele as folhas
e dele a libertação das asas para lá da árvore.

in “Um pássaro antigo nos olhos”, pag. 37, editora Modocromia

 

O QUE NÃO QUERO OLHAR

O que não quero olhar.jpg

Deixem-me a liberdade
de não olhar mais
o que não quero olhar,
de ver só parte
da luz que me envolve.
De me recolher
na concha do início
ninho da inocência,
na serena ignorância
das sombras caídas
sobre o correr da vida.
Deixem-me a liberdade
de ser só eu,
dentro de mim
isolada,
longe da luz da verdade.

Dezembro 2016

 

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Apresentação do livro “Um pássaro antigo nos olhos”

capa livro.jpg

 

(…)

Aprecio sobremaneira a sua linguagem sugestiva e clara, onde cada metáfora faz, afinal, sempre sentido e vem a propósito e nos desafia para a recriação de realidades, estímulo determinante para sobrevivermos ao lugar-comum dos dias cinzentos. Mas com músculo sobre a estoica ossatura e sem mácula de matéria adiposa.
Poesia necessária como o pão de cada dia, no dizer de Celaya, para que assim nos chegue carregada de futuro. E se concordarmos que uma das atribuições fundamentais do exercício poético é o despertar emoções, ah, então aí a obra criada, neste domínio, pela Alice é uma torrente impetuosa na invernia em que, de súbito, se transformou o ainda há pouco recatado e remansoso regato.

Jorge Castro, Prefácio I

(…)
Desde logo o título - “Um Pássaro Antigo nos Olhos” – que nos remete para o voo livre da poesia – “Poesia Liberdade Livre” de que fala o poeta António Ramos Rosa - sem outro limite que não seja o olhar da poetisa sobre o mundo e as coisas. E os seus próprios sentimentos.
Em qualquer caso, um olhar maturado pela distância temporal, num exercício de depuração que apenas o tempo e a distanciação permitem. Estamos assim perante uma poesia vertebrada e adulta que não se confunde com o mero brilhozinho do papel celofane com que tantas vezes se enfeitam os autores da 25ª hora, isto é, que começam a publicar tarde.
Em segundo lugar, desejo destacar que a autora sabe muito bem da luta corpo a corpo com o mundo, em que a verdadeira poesia se joga. Diria até que o sabe com o próprio corpo e com a carne do poema, e que das suas próprias dores, que mais não são que o reflexo das dores da Humanidade, recolhe a matéria do “fingimento” poético, de que se alimenta.

Manuel Veiga, Prefácio II

 

 Fotos do lançamento do livro a 03/12/2016, no Chá da Barra Villa, Palácio do Egipto, Oeiras

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Publicado em Inominável nº 6

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