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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 29.03.17

Alice Duarte (i)

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Nasci em Alenquer, na Estremadura, à beira do Ribatejo, no ano de 1949. O que então se chamava escola primária e liceu apanhou-me na zona de Torres Vedras, para onde a família se mudou. Este amor pela escrita deve ter nascido comigo, porque já na escola primária a professora dizia que eu fazia “redações muito bonitas”. 

 

Mais tarde, já transportada para a zona de Lisboa, o facto de ter seguido um curso de engenharia salpicou a minha vontade de escrever com o pensamento lógico obrigatório a quem está nessa área. Talvez por isso, o meu refúgio era a escrita de diários mais ou menos românticos que fui rasgando ou perdendo, consoante as mudanças da vida, o casamento, o nascimento de duas filhas e, mal dos males, o emprego na administração pública onde, por acaso, quando era necessário dar algum colorido à uniformidade de informações e ofícios, aparecia sempre alguém que dizia: “a Alice é que tem jeito para isso!”.


Na realidade, só quando as filhas cresceram o suficiente para me parecer que o ninho estava vazio, pensei como seria bom voltar à escrita com gosto e por gosto. Iam, para aí, os anos dois mil e poucos e a Internet explodia como forma de comunicação. Alguém me desafiou a manter um blog, algo que eu não sabia de todo o que era, mas com que rapidamente travei conhecimento. Tinha 55 anos quando o meu primeiro post apareceu no blog “Mulher dos 50 aos 60”. A partir daí, foi uma longa viagem de descoberta de pessoas, de formas de escrever, de fotografar, de pintar… Depois desse blog, outros vieram e a vontade de escrever não parou, nem mesmo quando deixei de pertencer a esse mundo, por razões várias, nomeadamente por querer outras experiências e ter-me aposentado, o que me dava tempo para procurar grupos e pessoas que partilhavam os mesmos gostos.

 

Publicar nunca foi um objetivo nem uma ambição. Era uma mistura de preguiça com a sensação de não ter uma voz original. Algo aconteceu, há cerca de dois anos e meio, que modificou completamente essa forma de olhar aquilo que escrevo. Muito prosaicamente, nasceu um neto. Para mim foi poético e fez-me procurar tudo o que tinha espalhado por gavetas reais e virtuais. Escolher e organizar levou algum tempo mas, finalmente, em Dezembro de 2016, viu a luz o livro de poesia “Um pássaro antigo nos olhos”, obviamente dedicado ao Lucas, o meu neto. Quem ler esta justificação talvez se pergunte se só isto justifica que se publique um livro. Não sei nem me cabe a mim responder. Neste momento, a minha motivação é o desejo de que quem lê o livro se reveja, pelo menos, num dos poemas que lá estão. Se assim for, terá certamente valido a pena.

Manteve vários blogues, dos quais o mais recente tem o endereço vidadevidro.blogspot.pt; colaborou em coletâneas de poesia, nomeadamente “A poesia nos blogues”, ed. Apenas Livros, 2006, “Escrever é um lugar tão perto”, ed. Apenas Livros, 2007, “Palavras de Cristal”, ed. Modocromia, 2016 e “Entre o sono e o sonho”, ed. Chiado Editora, 2013, 2016.
Atualmente faz parte do Grupo de Escrita Criativa da Universidade Sénior de Oeiras que publicou, em 2015, a coletânea “Se um dia…”, e em 2016 a coletânea “Crónicas… não só mas também” e do Grupo de Teatro da Universidade Sénior de Oeiras

 

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O SILÊNCIO POR DENTRO DA COR

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Sinto uma raiva contida nas esquinas do tempo
um sopro hostil
que tolhe o movimento.
Paro um pouco.
Afinal os dias podem abrandar
o ritmo interior
sem que nada se parta, se perca
de algum antigo ardor
ou chama vital.
Que sei eu do que me leva?
Que sei do bem ou do mal?
Paro um pouco
ou muito ou tudo ou o que for.
Que se oiça o silêncio por dentro da cor
dos sons,
até que a claridade se revele inteira
sem sombras de fingida dor.
Que a balança suba o prato da entrega
leve, leve pena pairando no ar
livre de amarras.
Porque um certo dia essa hora chega
no áspero vento das bandas do mar.
Tempo de pensar.

in “Um pássaro antigo nos olhos”, pag. 20, editora Modocromia



UM PORQUÊ

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Há um novo porquê suspenso no teto.
Cada vez que o olho
quero dizer que esses são os dias bons
aqueles em que as perguntas se renovam
sem resposta necessária
ou suficiente. Sei lá das suficiências
ou necessidades.
Sei dos dias cheios de porquês
que se balançam como se quisessem
gerar ideias.
É talvez por isso que existe o teto
não para me tapar as dúvidas.
Lá fora o dia juntou todas as cores
branco límpido.
Se perguntasse para onde foi o azul
ou o dourado
estaria a inventar mais um porquê
e não posso.
A regra manda que se suspendam do teto
para que os dias possam ser brancos
e não haver dúvidas.

in “Um pássaro antigo nos olhos”, pag. 24, editora Modocromia

 (continua)

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Publicado em Inominável nº 6

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