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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 18.05.16

A minha Feira do Livro de Lisboa

A minha Feira do Livro é só minha. Não façam essa cara que eu sei que chega para todos. Mas a Feira que eu guardo,  a Feira que eu espero sempre com ansiedade, aquela em que passeio, sozinha ou com amigos, a que trago para casa nos sacos de livros comprados e no coração, é minha. Só minha.

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A Feira nunca está realmente pronta a começar no primeiro dia. Ou porque ainda não chegaram os livros a algumas barraquinhas (agora diz-se stands mas eu não quero saber), ou porque não há multibanco, ou porque não há luz. Sim, lembro-me de um ano em que não havia luz, para compensar chovia copiosamente. Que fui para lá fazer, perguntam-me?  A sério? Ainda acham necessário fazer essa pergunta? Como não ir, se a Feira começou?

 

A Feira deixa-me saudades desde o dia em que termina. Padeço de sentimentos nostálgicos até ao primeiro dia da Feira seguinte. A melancolia da festa dos livros assalta-me muitas vezes, e, mesmo no dia mais frio do Inverno, sou levada pelo desejo de voltar ao Parque. Imagino o caminhar acima e abaixo, a animação nos rostos, os sorrisos conhecidos com quem me cruzo sempre, todos os anos.
O cheiro das farturas surpreende-me a memória, que a Feira tem prazeres além dos livros, e eu gosto de partilhar um doce com um amigo, no meio da partilha das pechinchas do dia. Com canela e muito açúcar, peço eu, com os olhos brilhantes da gulodice contida no resto do ano. Os cristais de açúcar colados aos lábios lembram-me que nenhuma fartura me sabe tão bem como aquela, que a Feira não pode acabar sem que ceda mais uma vez (e outra) ao pecado da gula, que só é amargo o sabor da fartura que ficou por comer, prometida, mas não cumprida. Esquecida por quem a havia de ter comido comigo.

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Gosto de ir logo no primeiro dia. Mas vendo bem, não é uma questão de gosto, é por não aguentar não ir. Como faltar, se a Feira já começou? No primeiro dia janta-se no meio dos livros, num ritual de amigos especiais, bebe-se a primeira ginja e fica-se até ao fim, a ver, lá do topo, a noite a cair no Parque. 

Agora, que a ansiedade desacelera a contagem decrescente, os dias que faltam são os que custam mais a passar, por serem cada vez menos. Preparo as listas de desejos, faço as contas aos meses de publicação e um cálculo aos possíveis descontos, e invento espaço para os livros que hão-de habitar as estantes.
Em 2016 teremos dezanove dias de Feira. Teremos três fins-de-semana de dias longos para assistir com mais tempo a lançamentos e todo o tipo de eventos. Em relação aos eventos, tenho que admitir que, se calhar, a diversidade começa a ser demais. Desde que vi, no ano passado, uma sessão de penteados em plena Feira, pergunto-me qual o interesse deste tipo de apresentações. Acho que não é preciso arranjar o cabelo em público para promover livros de penteados (nada contra livros de cabelos, até li um excelente este ano), ou levar a cozinha para o recinto em espetáculos de show cooking (lá vem o estrangeirismo, como se não tivéssemos nós vocabulário suficiente) para divulgar livros de receitas. E as sessões de autógrafos, claro, a par com os lançamentos dos livros são quase a nova Modalidade Olímpica. Nada contra, vou a todos os que posso, na Feira e fora dela, mas confesso, a título de segredo, e muito baixinho para que ninguém me ouça, que tenho saudades de desassociar o livro de quem o escreveu.

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 (continua)

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Publicado em Inominável nº 3

por Márcia Balsas, autora do blog Planeta Marcia

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