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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Seg | 08.05.17

2D 3D | Querida! Capotei o carro! Outra vez!

 

Quando eu era pequenino, na altura em que a Quinta do Bill ainda era uma banda relevante, os videojogos não existiam na abundância exagerada que existem hoje. Fossem bons ou maus, os videojogos a que tínhamos acesso eram basicamente o que nos iria entreter durante umas horas.

Calma, não é de nostalgia que venho falar, apesar de me conseguir imaginar daqui a uns 50 anos gordo e velho sentado numa cadeira de plástico na esplanada do café local a discutir com um colega semi-surdo sobre como os bons velhos tempos é que eram bons, quando tínhamos de carregar em botões de teclados e andar com o rato de um lado para o outro em vez das modernices baseadas em detecção de estímulos de sinapses, como haverá naqueles dias.

É “sinapses” que se lhes chama? Não sei. Estou a imaginar as senhoras directoras da revista a receber emails zangados de neurocirurgiões e tal. Peço desculpa.

Continuando; a falta de videojogos fez com que às vezes me divertisse a experimentar alguns títulos que não eram muito a minha onda, particularmente os de corridas e carros. (Admito, como paupérrimo representante do género masculino, é com pena que digo que há alguns conceitos estereotipicamente machos dos quais não percebo coisa alguma, aos quais chamo os três F’s: Futebol, Fêmeas e Fcarros.)

 

 

Lembro-me de que o meu ponto de entrada para os videojogos de carros foi com exemplares bastante básicos de corridas normais. É evidente que nem me lembro dos nomes deles (acho que um deles tinha um nome estranho tipo Need For Speed ou algo do género). Em verdade digo que nem sempre era eu a jogar. Era-me perfeitamente suficiente simplesmente ficar a ver outra pessoa a divertir-se.

Os tempos passaram, mas não me ajeitava a conduzir como deve ser em ambientes virtuais. Estava sempre a bater com o carro no mais ínfimo detalhe presente na cena e conseguia fazer manobras horríveis que quebravam todas as leis da física, mesmo que dentro de um mundo imaginário.

 

 

Alguma alma caridosa (ou alguém tão aselha quanto eu) reparou que poderia haver um mercado para este tipo de pessoas ineptas a conduzir virtualmente. Essa alminha, abençoada seja, decidiu que seria boa ideia criar um videojogo cujo objectivo fosse efectivamente acertar em tudo o que se mexesse.

Os dois melhores exemplos que me vêm à cabeça são o Grand Theft Auto (GTA) e o Carmageddon.

“Ah, já ouvi falar de um GTA… acho que comprei isso para o meu sobrinho… ai, não me lembro qual… foi ao Martim, que o meu outro sobrinho nasceu na Holanda e tem um nome estranho e não sei dizê-lo.”

Compreendo que este pensamento vos possa ter ocorrido. De facto, o GTA é um nome titânico na indústria, que teve origens humildes numa cidade a duas dimensões e cujo personagem controlável era uma mancha de pixéis amarelos. Esse personagem entretinha-se, incitado por nós, a navegar pelas ruas mal desenhadas da cidade a escavacar carros e a destruir propriedade alheia. Era um videojogo violento e tenho a certeza de que muitos sádicos terão pegado num lança-chamas e deitado fogo a carros e a pessoas, para depois chegarem a casa e fazerem o mesmo dentro do jogo.

Mas se falamos de sadismo, temos mesmo de passar ao Carmageddon. Lembro-me de que a primeira vez que vi uma notícia televisiva sobre videojogos em Portugal foi precisamente a falar de jogos como este, não por boas razões, mas enfim.

Introduziram-me ao Carmageddon quando este estava na sua segunda iteração e quando eu estava ainda numa faixa etária… susceptível de ficar emocionalmente afectado. Como referi, já me tinha passado o GTA pelas mãos, mas nada me preparara para o que ia ver.

O Carmageddon é essencialmente mais um jogo de corridas, excepto que podemos completamente ignorar o objectivo de andar às voltas num circuito preconcebido e simplesmente ir chacinar a população local horrorizada. Se isso parecer demasiadamente grotesco, podemos simplesmente destruir os nossos adversários. Eles não podem ganhar se não existirem, não é verdade? Se concordardes, então estais a entrar no espírito da coisa.

 

 

Mas destruir e matar e no geral ser o mau da fita não é suficiente. Há que saber ser criativo com as opções que se têm para se aniquilar os alvos. Felizmente, os desenvolvedores pensaram nisso tudo, e oferecem ferramentas absurdas dentro do jogo para despachar tanto inimigos como peões. Por exemplo, podemos activar um efeito que eletrocuta as pessoas à volta, explodindo-as em pedacinhos coloridos e provavelmente suculentos (talvez um bocadinho tostados por fora). Melhor ainda, que tal transformar peões em insectos fininhos que se tornam extremamente sensíveis e quebráveis ao toque? Há algum adversário a chatear-nos? Pior para ele, pois podemos catapultá-lo para o horizonte através de um sistema inexplicável de molas poderosas que surgem magicamente do nosso veículo. Se acreditarmos que a força bruta é superior à exequibilidade de uma acção, nada nos impede de amarrar uma bola de metal pesada com picos à traseira do carro para nos impossibilitar a condução (mas é extremamente gratificante quando atingimos alguma coisa de propósito à septuagésima tentativa).

É violento, sim, admito, mas até eu com 10 anos percebia que o absurdo desta violência sem sentido acabava por a banalizar, e é-me impossível admitir qualquer coisa que eu fizesse no jogo como sendo algum tipo de reflexão do meu subconsciente Feio. A violência nos videojogos é um tema recorrente e talvez venha a falar dele mais pormenorizadamente, quando for moda outra vez falar disso.

Entretanto, não penseis que eu sou um demónio possuído nas estradas. Permiti-me exemplificar:

Certo dia estava a descer a A5 em Monsanto. Deixei o pessoal a “anhar” na fila para a ponte e segui naquelas duas faixas que dão acesso a Lisboa. Há uma estrada à direita (que nem sei donde vem) de onde vinha uma ambulância. Tentei determinar se estaria em marcha de emergência…

No segundo a seguir noto que os carros da frente tinham travado e que eu estava prestes a colidir horrivelmente com o veículo à minha frente.

Não gritei “Ya, isto é mesmo como o Carmageddon! AHHHAYAYAYA VOU-TE MATAR!!”

 

 

Na verdade, nem disse nada. Só por instinto é que travei e ainda hoje estou a tentar perceber como é que consegui controlar o carro enquanto deslizava de um lado para o outro. Não bati, mas devo ter pregado um susto do caraças ao jovem da frente.

Só passados uns momentos é que consegui praguejar alguma coisa entre dentes, que foi a única vocalização que me foi possível fazer. As minhas mãos e pernas tremiam a um ritmo tão acelerado como o meu coração.

Num videojogo pode-se sempre voltar atrás. Não existem consequências a sério para as nossas acções. Na vida real, no entanto, temos intrinsecamente o sentido de autopreservação e senso comum que nos impede de cometer as mesmas parvoíces que banalmente realizamos num mundo virtual.

Às vezes pergunto-me se ainda lá estará a marca dos pneus. Uma lembrança de um Carmageddon que poderia ter corrido muito mal.

 

 

 

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Publicado em Inominável nº 7
por Rei Bacalhau, autor do blog O Bom, o Mau e o Feio

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