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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Qua | 03.01.18

2D 3D | O Último Jogo de Minecraft

É reticentemente que carrego no botão. Sei que será muito provavelmente a última vez que o irei fazer para proveito próprio. Os quadrados e cubos são gerados perante os meus olhos, criando um novo mundo aleatório e relativamente incerto. Dou os primeiros passos no meu último jogo de Minecraft.

 

 

À minha volta elevam-se acácias tristes e isoladas, consistentes com o bioma de savana onde fui colocado. Dirijo-me a uma quase por memória muscular, pois o primeiro passo de qualquer novo mundo é dar socos em árvores para obter madeira. Sorrio ao pensar o quão pouco sentido esta frase faz no mundo real. Mas esse mundo ficou para trás. Agora tenho apenas de pensar em sobreviver.

Adquiro madeira suficiente para começar a manufacturar algumas ferramentas básicas, nomeadamente uma picareta de madeira para perfurar um monte convenientemente posicionado para servir de base inicial e de mina.

Procuro nas ervas secas da savana por sementes para poder plantar trigo, pois a comida começará a ser um problema eventualmente. Por enquanto irei subsistindo à conta de um rebanho de vacas que detectei aqui perto, já que não estou a fingir ser vegetariano.

Nem sei bem qual é o meu objectivo. No Minecraft não existe nenhum concreto, por isso se calhar vou fazer o que faço sempre: fazer uma quinta, com hortas e um celeiro, bem protegida dos monstros nocturnos por uma cerca. Ah, claro, terei de fazer uma casinha, modesta como sempre, que eu não sou muito exigente. Para isto e muito mais dá jeito ter recursos minerais, para fazer ferramentas melhores e embelezamentos arquitectónicos.

Vou para a minha mina improvisada e começo a cavar para baixo. Não directamente para baixo, claro! São as regras básicas: nunca se escava nem directamente para baixo nem directamente para cima. Os perigos ambientais são demasiados. Para baixo poderemos deparar-nos repentinamente com uma falésia profunda e cairmos desastradamente de uma altura mortal, para grande diversão e proveito dos habitantes das cavernas escuras. Para cima poderemos encontrar um aglomerado de areia ou gravilha que fará o possível para nos enterrar vivos, ou então mesmo magma, a profundidades suficientemente baixas.

Penetro pela terra abaixo, cuidadosamente, e começo a ouvir os sons grotescos de monstros a deambular numa caverna próxima. Ao destruir mais um bloco de pedra, eis-me com acesso a uma gruta.

 

 

Mas não é uma gruta qualquer. Verifico a existência de estruturas de madeira e pequenos troços de carris. É uma mina a sério, abandonada, criada sabe-se lá por quem, habitada por mortos-vivos, arqueiros esqueletais, aranhas gigantes e venenosas e, pior de tudo, por "eles", os que os ingleses chamam de “creepers”.

Mato à espadada um zombie, adversário de pouco valor. Esta mina em que entrei não tem organização alguma, sendo quase um labirinto para os que não estão preparados para tais ocasiões. Não é o meu caso. Equipado com uma quantidade decente de tochas que ardem infinitamente, vou colocando-as sistematicamente nas paredes à minha direita, à medida que exploro as perigosas esquinas e galerias apertadas da mina. Para voltar, bastar-me-á sempre seguir as tochas pela esquerda. O sistema tem algumas falhas, mas é simples e funciona para a grande maioria das situações.

Enquanto exploro, aniquilando com mais dificuldade os arqueiros mortíferos e as aranhas venenosas (e fugindo “deles”), vou extraindo os minérios que aparecem nas paredes: carvão, ferro, ouro. Quando estou satisfeito, volto ao ponto de partida, onde já construí uma escada de madeira até à minha base de operações. Fabrico ferramentas de metal, aumento a minha horta, construo a minha casa e uma pequena torre/farol para o caso de me perder numa exploração à superfície.

 

 

O meu espírito completivo fez-me voltar à mina abandonada para a explorar na sua totalidade, dando finalmente com uma falésia subterrânea enorme, uma das maravilhas naturais do jogo que, não sendo horrivelmente incomum, não deixa de ter sempre o seu charme após um primeiro vislumbre.

É ao descer e investigar a base desta falésia que descubro um dos recursos mais raros, icónicos e cobiçados do videojogo: diamantes.

Igualmente, é ao reflectir nas características brilhantes do mineral que me surge uma ideia essencialmente difícil de concretizar, mas que daria um bom projecto de construção.

Para fazer jus à minha denominação ictióide, parece-me que terei de criar uma habitação que não esteja à superfície terreste. Decidi então criar uma espécie de aquário inverso na baía ao pé da minha base: uma estrutura oca de vidro completamente submersa, onde poderia estar mais em conformidade comigo próprio. Faço uns esquemas mentais enquanto arranjo a quantidade enorme de areia necessária para criar vidro suficiente para este projecto tão insano. Podereis não acreditar, mas construir debaixo de água pode ser mais irritante do que se imagina.

Depois de muitas inundações, muitas correcções desastrosas e muitos suspiros irritados de frustração, acalmados apenas pela música de Rossini (não que eu ligue muito ao zodíaco, mas sinto uma certa afinidade natural com os peixes), acabei finalmente a minha obra.

Satisfeito, olho para a minha base uma última vez e fecho o jogo.

 

Creio que vos devo uma explicação. Aliás, devo evidentemente, pois não iria fazer este relato todo sem um propósito claro em mente.

Talvez alguns de vós já tenhais ouvido falar de um videojogo chamado Minecraft. Talvez não reconheçais o nome, mas tereis eventualmente um filho ou sobrinho ou neto que esteja de vez em quando pasmado no computador/consola a brincar num mundo virtual aos cubos. O sucesso explosivo deste videojogo há vários anos atrás catapultou-o para um possível merecido título de "obra-prima", neste caso não pela sua beleza estética, mas pela singeleza das suas mecânicas de jogo, em particular a liberdade quase total que qualquer indivíduo tem para fazer os projectos mais insanos que lhe vierem à cabeça, usando simplesmente cubos de várias cores e funções.

Felizmente ou infelizmente, todos os videojogos acabam naturalmente por perder o seu apelo inicial, e com o passar do tempo fui-me esquecendo dele e concentrando-me noutros títulos.

De alguma forma, sem realmente me aperceber, o Minecraft que eu conhecia transformou-se completamente e foi recentemente que fiquei chocado ao saber que há crianças de tenríssima idade já a destruir cubos neste mesmíssimo videojogo. Como se um relâmpago me tivesse acertado, descobri quase sem querer que já existem escolas, mesmo cá em Portugal, que ensinam crianças e jovens a programar usando Minecraft. E ainda mais aterrador do que isto é o facto de esta tendência de infantes a jogar o mesmo que eu já não ser nova. Aparentemente, há já muito tempo que o Minecraft é considerado um videojogo de crianças.

Quanto mais reflicto neste assunto mais me convenço de que se calhar já me deveria ter apercebido disto há mais tempo. Os sinais andavam por aí. Lembro-me, por exemplo, de ouvir falar de quererem fazer um filme sobre o Minecraft. É facilmente induzível que o público-alvo de um filme desses não é o adulto, mas sim uma faixa etária mais jovem.

Dito isto, não tenho escolha senão em passar o testemunho para os pequenos. Já não consigo jogar Minecraft sabendo que já não é... correcto fazê-lo. Analogamente, é a mesma razão pela qual já não brinco com Legos. Há certas coisas com as quais só é aceitável brincar na companhia de um membro de uma ou duas gerações seguintes.

Será a última vez que jogarei Minecraft? Sinceramente, talvez não. Talvez jogue com um familiar mais pequenote, não sei.

Mas foi o MEU último jogo.

 

 

 

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Publicado em Inominável nº 11

por Rei Bacalhau, autor do blog O Bom, o Mau e o Feio

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