Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Ter | 20.06.17

2D 3D | O Tabu

2D 3D | O Tabu

 

Considero que nasci numa época que me permitiu viver em todo o seu esplendor a era dourada da indústria dos videojogos. Esta afirmação, aparente e incompreensivelmente condescendente, não deverá ser chocante para nenhum humano normal, pois todos nós pensamos que nascemos para apreciar a era dourada de alguma coisa e para posteriormente nos relembrarmos melancolicamente dos bons velhos tempos. Para alguns é a música, para outros o futebol, para outros os programas de culinária da televisão. É evidente que nesse aspecto, ninguém está certo nem errado.

Contra mim falo, portanto.

Concordemos que é tudo subjectivo e prossigamos.

Para mim, essa mítica era dourada dos videojogos foram os anos 2000, quando a indústria estava a tornar-se cada vez mais profissional e organizada. Algumas das maiores obras-primas foram lançadas neste intervalo de tempo, as quais assentaram degraus importantíssimos nos quais os videojogos de hoje ainda se baseiam na sua subida para o sucesso.

 

Alto.

 

Como vedes, poderia continuar a deambular à volta deste assunto durante mais umas páginas. Poderia agora metralhar-vos com imensos exemplos de videojogos específicos e o quão relevantes eu acho que eles são/foram para a indústria em geral.

Mas não o farei. Por uma razão muito simples:

 

Este assunto simplesmente não vos interessa.

 

Calma, permiti explicar-me. Não estou a dizer que os videojogos não interessam a ninguém (aliás, seria bastante errado dizê-lo, creio eu). Gostaria de fazer notar que EU é que acho que não interessam a ninguém, o que é uma diferença semântica considerável. De certa forma, falar de videojogos ainda é um tabu, comparativamente falando. Para exemplificar, considerem-se num almoço entre amigos ou colegas. Pode-se falar de todo o tipo de passatempos e ninguém realmente julgará o orador. Fale-se de cinema ou música ou desporto e ninguém estranhará a conversa. Agora imaginem o cenário de alguém perguntar:

- Já viram o trailer do novo Call of Duty? Vai voltar à Segunda Guerra Mundial!

Imagino um silêncio sepulcral inicial até alguém desconfortavelmente perguntar que filme é esse.

(a piada é que o Call of Duty é discutivelmente uma das sagas de videojogos mais famosas de sempre)

 

Nesta situação, é bastante provável que houvesse alguém à mesa, provavelmente na outra ponta, que soubesse do que é que o outro estava a falar, mas acredito que se tenha impedido de responder, precisamente devido ao tal tabu em que eu gostaria que vós acreditásseis.

De certa forma, o que define um tabu é o facto de ter de existir alguma cumplicidade entre um grupo limitado de pessoas para poderem discutir certo assunto livremente. É óbvio que os videojogos são discutidos, quase demasiadamente até, especialmente nas vis e corruptas ondas dos oceanos virtuais. Creio, no entanto, pela minha observação de excertos da sociedade, que os videojogos ainda não atravessaram aquela membrana social que banaliza completamente um assunto e o torna viável de ser tema de conversa em contextos coloquiais.

 

Tudo isto é compreensível, sinceramente. Apesar de a indústria já não ser nova, tendo outrossim tomado de assalto o mercado de entretenimento global, ainda não passaram anos suficientes para que exista uma cultura enraizada de videojogos como parte essencial da sociedade. Estamos talvez numa fase de transição. As próximas gerações já terão consumido muito mais os videojogos como parte da sua cultura. Por muito que me custe admitir, os dispositivos móveis estão a ajudar nesse aspecto, pois vejo os mais improváveis personagens agarrados ao telemóvel a dar cabo de bolinhas nos seus ecrãs. Custa-me ainda mais admitir que poderá vir a acontecer que falar de livros é que poderá vir a tornar-se num assunto tabu...

Mas prefiro nem pensar nisso. A verdade é que há tempo e espaço para tudo.

Contudo, é frustrante para mim esta fase de transição, como lhe chamei. Mete-me impressão aparentar ser um tipo desinteressante, pois nunca tenho uma boa resposta para quando me perguntam o que é que eu fiz no fim-de-semana. Há sempre aquele idiota que foi fazer uma escalada algures e que fala durante horas sobre todos os ínfimos detalhes dessa actividade (sem ofensa a quem a pratique; não sei porquê, mas vem-me sempre escalada à cabeça quando penso em actividades fixes que eu não faço; fazer surf vem logo logo a seguir).

Pessoalmente, gostaria que me fizessem essa pergunta e eu pudesse responder com toda a confiança:

 

- Ah, estive ocupado a invadir a Anatólia, a ver se dou cabo dos Otomanos de uma vez por todas que eles estão fartos de me chatear. Ontem consegui chegar a Alepo e acho que vou ficar por aí, que a Polónia/Lituânia está a ameaçar-me com guerra e um gajo tem de se precaver, que acho que eles ainda estão um bocado irritados com a minha conquista de Smolensk.

 

Gostaria que a reacção dos ouvintes fosse a de pedir mais detalhes sobre a minha campanha nesse qualquer genérico videojogo de estratégia, e não a de se levantarem todos e irem para outra mesa, como é mais usual.

Enfim, com o tempo quebraremos o tabu. É como eu digo sempre aos meus soldados russos: "Tempo e paciência".

 

 

______________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 8

por Rei Bacalhau, autor do blog O Bom, o Mau e o Feio

Siga-nos no Bloglovin