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Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

Seg | 26.06.17

2D 3D | Andar à porrada melhorou a minha vida

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Qualquer pessoa que jogue videojogos cai ou acabará por cair no erro de olhar com nostalgia para o tempo em que “os jogos eram bons”. Obviamente, isto acontece em todas as áreas da sociedade. No caso presente, cabe a cada um decidir se será ou um retrógrado elitista que sabe o que é um Spectrum, ou um totó subscrito a todos os fóruns, canais, revistas e sítios online do que é novo na indústria, ou pode até estar algures no meio. Qualquer das opções é viável.

 

Eu sou daqueles que glorifica a “época dourada” dos videojogos. O meu caso é tão grave que já comecei a usar a expressão “época dourada”, como verificam. Na verdade, sou parte da geração que começou a jogar quando se é demasiadamente novo para saber o que era o Spectrum (portanto, contra mim falo) e suficientemente velho para saber que o ícone típico de “Gravar” é um objecto estranho chamado “disquete”.

Não se admirem então com o meu discurso quase snob ao falar do assunto de hoje.

Hoje vou falar brevemente sobre jogos de estratégia, especificamente os chamados RTS (Real-Time Strategy ou Estratégia em Tempo Real), dos quais vou mencionar alguns exemplos. Estou desapontado com o género, pois parece-me que nos dias de hoje já não se fazem como antigamente (vêem? Eu avisei). Investigo jogos de estratégia mais recentes e não surge nada que me apele. Se calhar o problema é que fui mimado com jogos verdadeiramente fantásticos, mas esta hipótese cai por terra quando vejo alguns que costumava jogar.

O primeiríssimo jogo de estratégia que me lembro de jogar chama-se Metal Knights, mas não era em tempo real, sendo na verdade baseado em turnos. Gráficos ultra simples (suficientes para a altura) mas com uma profundidade de jogabilidade comparativamente elevada. O que era interessante era que na altura podia-se jogar aquilo online. Um jogador acabava o seu turno e basicamente enviava o mapa no estado em que o deixara para outro jogador. Ou seja, cada um tinha de esperar uma data de tempo antes de poder jogar outra vez. Era tipo xadrez, com a diferença de que quando se visse o campo de batalha de novo, poderíamos ter sido já decimados sem podermos fazer grande coisa. No xadrez pelo menos sabemos à partida que a partir de certo ponto estamos tramados.

 

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Algures no ano 2000 (talvez?) foi-me oferecido um jogo para mim revolucionário. Um jogo que estabeleceu novos patamares no género de RTS: Age of Empires II. É um jogo em que comandamos a nossa civilização e os nossos exércitos através de eras diferentes do medievismo. Criam-se aldeões, que adquirem recursos, com os quais constroem edifícios, nos quais se treinam tropas e se desenvolvem tecnologias. Objectivo final? Andar à porrada. Espadachins contra cavaleiros contra arqueiros contra catapultas contra elefantes contra castelos. Tudo contra tudo, sendo que cada unidade tem forças e fraquezas e por vezes é dificílimo que dois exércitos estejam perfeitamente equilibrados um contra o outro. Aliás, é esta percepção que diferenciará jogadores.

Nos dias de hoje o conceito pode parecer muito básico, mas o “eu” pré-adolescente não compreendia inicialmente a gestão de recursos e o equilíbrio dos diferentes tipos de tropas. Mas aprendi. Fiquei mais admirado quando me apercebi de que as forças e as fraquezas das tropas tinham razão histórica de ser.

O Age of Empires II vinha com um manual que tinha descrições detalhadas sobre o contexto histórico por detrás de cada tipo de soldado e por detrás de cada tecnologia (infelizmente agora não consigo encontrar o manual, gostaria de o mostrar… enfim…). Aprendi imenso sobre a Idade das Trevas em que a Europa esteve mergulhada durante 1000 anos. Para ser justo, devo dizer que havia nações asiáticas e americanas no jogo, mas o manual parecia focar-se muito na Europa.

É um jogo famosíssimo pelas renhidas e longas competições online que se desenrolaram, mas nunca apanhei nada disso, pois só viria a ter serviço de internet muito mais tarde.

Alguns anos depois, recebi um jogo que considero uma das obras-primas da indústria dos videojogos. Era a terceira iteração de uma saga já bastante bem colocada: Warcraft III: Reign of Chaos. Também é um RTS, mas as parecenças com o Age of Empires acabam quase aí. A jogabilidade era similar em alguns pontos apenas. Havia 4 facções fantasiosas, bastante díspares em termos das suas características. No geral, o esquema era o mesmo. As unidades trabalhadoras adquiriam recursos, construía-se a base, criavam-se tropas. Objectivo final? Andar à porrada. Quer dizer, salvar o mundo de uma imensa invasão demoníaca. Mas andar à porrada, resumidamente. Contudo, desta vez poderíamos estar a usar magias para transformar um minotauro gigante numa ovelha, ou então fazer um raio gigante fritar uma cambada de mortos vivos, ou então ser um vegan, como está na moda, e usar os poderes da Natureza para arremessar flores agressivamente ou algo do género. E desta vez em 3D! Acho que na altura se teve de comprar um computador novo e tudo.

O Warcraft III introduziu-me a mundos de fantasia com um enredo épico e transmitido de forma sublime pelos momentos cinematográficos. Aliás, não podem deixar de ver um pequeno vídeo de quando a história do modo de campanha do videojogo começa. Não se preocupem com a história, mas concentrem-se no facto de que isto foi feito há muito mais que 10 anos e ainda rivaliza com coisas feitas nos dias de hoje. É uma qualidade de produção inimaginável, para mim.

 

 

Este jogo acabou por ser seguido pelo infame World of Warcraft, que me arruinou a vida académica. Bons tempos!

 

2D 3D | Andar à porrada melhorou a minha vida

 

A nível pessoal, estes três jogos que usei como exemplo são extremamente importantes. Partilham uma característica muito relevante e que lhes aumenta imensamente o valor: têm editores de mapas. Um editor de mapas é uma ferramenta própria do videojogo que dá a qualquer utilizador a possibilidade incorporada de criar os seus próprios desafios e histórias num mapa pessoalmente feito. De certo modo, dá-lhes a possibilidades de criar arte.

 

2D 3D | Andar à porrada melhorou a minha vida

 

O editor do Metal Knights, tanto quanto me lembro (e não consigo confirmar porque já não tenho o jogo), era um editor de mapa mais literal ao nome, pois apenas se podia “desenhar” o terreno e colocar cidades e recursos, mas não ia muito mais longe do que isso. No entanto, isso não quer dizer que quando eu era puto não tenha perdido imenso (demasiado?) tempo a fazer lá mapas e jogar neles.

O editor do Age of Empires era bastante mais sério, podendo-se colocar exércitos inteiros preparadinhos para a porrada vindoura. Podiam construir-se fortalezas imensas e ver as tentativas fúteis do inimigo a tentar conquistá-las (porque obviamente, eu não dava máquinas de guerra decentes ao inimigo, só para me rir um bocado). Lembro-me de ter feito e escrito uma campanha inteira com uma história inacreditável por trás (poupem-me, tinha 12 anos, se calhar…). Acho que ainda a tenho dentro de uma disquete.

Mas estas experiências eram amadoras comparativamente ao que se poderia fazer no editor de mapas do Warcraft III. Neste editor, infinitamente mais complexo e completo, podia-se fazer qualquer coisa. Foi o mesmo editor que os criadores do jogo usaram para fazer os seus próprios níveis. Podia criar unidades completamente novas, com atributos e efeitos completamente diferentes. Podia fazer pequenas apresentações cinematográficas com o motor de jogo, explicando a história do nível, o que também me introduziu a conceitos de cinema e planos (mais uma vez, não me levem a sério, estou a falar num nível muito básico). Mais importantemente, introduziu-me à programação, usando uma forma muito própria de programar as regras do jogo.

Falo disto porque nos dias de hoje é que vejo o quão fundamentais foram estes jogos para as minhas escolhas académicas e profissionais. Talvez por isso a nostalgia me faça falar com tanta estupefacção sobre a qualidade destes jogos.

Estes jogos, que as mães têm a mania de dizer que são o produto do Diabo para impedir que os filhos tenham boas notas, ensinaram-me muito mais sobre história, literatura, inglês, programação, design, geografia, cultura, ficção, fantasia, etc., etc. do que vários professores que tive na escola e na faculdade. Se joguei excessivamente? Sim. Se isso afectou a minha vida? Claro. Se hei-de continuar a jogar? Pelo menos os jogos antigos sim. Se sou um dos idiotas elitistas de que falei no início e que não quer experimentar coisas novas? Talvez. É uma forma de ser fundamentalmente errada, e não há nada como experimentar jogos novos de vez em quando. Mas não sei… Se calhar vou fazer mais uma batalha no Age of Empires e depois já se vê.

 

 

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Publicado em Inominável nº 4

por Rei Bacalhau, autor do blog O Bom, o Mau e o Feio

 

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