Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Revista Inominável

A revista para lá da blogosfera!

A revista para lá da blogosfera!

01
Jun16

Enganos

Inominável

Escrevo esta «crónica» sob pseudónimo, porque assim pretensamente me engano como se escrever não fosse mais uma modo de revelar que de ocultar. É Abril, e o seu primeiro dia é dos enganos. O que mais faço é enganar-me. Todos os dias visto uma personagem que não é bem minha e engano. A mim e aos outros.


Também sou enganado. Numa ilusão de que posso viver realidades alternativas, de que não prisioneiro de convenções, status, relações. Quando me vieste procurar com flores no cabelo, riso de primavera e rodopiavas à minha volta, tudo isso foi também um logro.


Disse tontamente que deixava tudo por ti, que viveria só para ti. Tarde percebi que nunca foi esse o teu intento, apenas querias apenas a ilusão de te manteres jovem, desejada. Nós homens, somos um bocado burros, mais ainda infantis, vivemos na ilusão de sermos imutáveis.


Nada é, o tempo muda tudo, muda-nos. Escrevi-te que o «faz de conta» me não servia, que comigo era tudo ou nada. Mostraste-te surpreendida como uma criança descoberta a fazer asneira. Não me deixaste uma palavra mais, porque ao matar a minha ilusão feri a tua de morte.


Estas palavras que jamais lerás não são de amargura, apenas constato que chegamos a um beco sem saída em que já não vale a pena caminhar ao encontro do vazio.


Melhor assim, contas saldadas, cada um fazendo o seu percurso da encruzilhada.

Jonathan

enganos.png

 ______________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 3
por Jonathan

 

 

 
30
Mai16

Primavera nas Astúrias #3

Inominável

Dia 6 – Llanes-Potes

 

Llanes é outra das localidades costeiras das Astúrias que merece uma visita. A viagem desde Arenas dura pouco mais de meia hora. Estacionem junto à praia del Sablón e subam até ao passeio de San Pedro para terem uma vista ampla sobre a costa e a localidade. O braço de mar que entra pela vila forma um pequeno porto, no extremo do qual se encontram os coloridos “Cubos de la Memoria”, criação do artista basco Agustín Ibarrola sobre os blocos de betão que formam o dique do porto. Depois percam-se pelas ruas do centro histórico e descubram a Igreja de Santa María del Conceju, o seu Casino modernista de inspiração barroca, o Torreão medieval ou o Palácio de Gastañaga.

  

 

Se continuam com vontade de andar a pé, a minha sugestão chama-se “Camín Encantáu” e fica a 15 km de Llanes. Sigam até Posada de Llanes e depois tomem a AS-115 até Puente Nuevo, onde vão encontrar um desvio à direita e um estacionamento depois da ponte. O “Camín Encantáu” é um percurso circular e fácil de 10 km pelos povoados do vale de Ardisana. Ao longo do caminho encontram-se dispostas a espaços várias esculturas de madeira que fazem referência à mitologia asturiana. Todas as informações sobre este percurso a pé estão disponíveis no site - El Camín Encantáu, - no Wikirutas e no Google.

 

Se no entanto estão sem vontade para grandes caminhadas, então proponho uma incursão breve pela região da Cantábria para visitarem a encantadora vila de Potes. São 65 km desde Llanes, parte dos quais (mais concretamente 21 km) pelo desfiladeiro de La Hermida, o mais comprido de Espanha, que acompanha o leito do rio Deva e oferece estupendas paisagens de montanha.

Localizada na confluência de quatro vales e dois rios, o Deva e o Quiviesa, e beneficiando de um microclima mediterrânico, Potes é uma típica localidade montanhesa, com as suas pontes e o seu bairro antigo de ruas estreitinhas sem trânsito motorizado. As casas são maioritariamente em pedra, algumas estendendo-se por cima das ruas, com caixilhos e varandas em madeira. A Torre do Infantado é o ex-libris da vila e remonta ao séc. XIV, abrigando actualmente a câmara municipal. Muito virada para o turismo, Potes é também famosa por ser um lugar onde se come bem, com destaque para as carnes e o cozido típico da região; a oferta gastronómica é abundante e variada.

 

 

Para regressarem a Arenas de Cabrales voltem pelo mesmo caminho até Panes, virem à esquerda para cruzar a ponte sobre o Deva e sigam pela AS-114. São cerca de 50 km, uma hora de viagem.


Dia 7 – Viagem de regresso


O último dia será mais uma vez passado em viagem. Há várias rotas possíveis para o regresso, mas sugiro que vão por Villaviciosa, Pola de Siero e Mieles para apanharem a AP-66, seguindo depois sempre para sul.
Como sugestão de paragem pelo caminho, a cidade de León é a minha favorita, com a Catedral gótica e a Casa Botines, de Gaudí, a merecerem especial destaque. E se apreciarem as obras deste arquitecto catalão, vale a pena fazerem o desvio de quase 50 km até Astorga para verem o Palácio Episcopal desta cidade, concebido por Gaudí em estilo neogótico medieval. Situada mesmo ao lado, a Catedral de Astorga é também digna de uma visita.

 

                    

    

 

Zamora, já mais perto de Portugal, é outra alternativa de paragem ainda em terras espanholas. Atravessada pelo rio Douro, o centro histórico é dominado pela catedral. Do miradouro à saída da Puerta del Obispo tem-se uma vasta panorâmica do rio e da cidade que se estende pelas suas margens, estando bem visíveis as azenhas de Olivares, em baixo, e do lado esquerdo a Puente de Piedra, que remonta ao séc. XII.

 

 

Este é apenas um dos roteiros possíveis por terras asturianas, pois muito mais há para ver nesta região espanhola. Sempre com a certeza de que não vão regressar desiludidos.

Outras sugestões de consulta para prepararem a viagem:
Where is Asturias e Asturnatura

______________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 3
por Ana CB autora dos blogs Viajar. Porque sim.Gene de traça, e

A vida e outros acasos.

 

 

 
27
Mai16

Primavera nas Astúrias #2

Inominável

Dia 4 – Ribadesella - Cangas de Onís - Covadonga - Lagos 
Arenas de Cabrales

Despeçam-se de Gijón com uma passagem pela Universidad Laboral e rumem para leste até Ribadesella, localidade de veraneio e de desportos de aventura. Situada no estuário do rio Sella, as avenidas junto à praia são especialmente encantadoras, com as suas casas apalaçadas de cores vivas sobressaindo na paisagem verde e azul.

A paragem seguinte é em Cangas de Onís, uma das portas de entrada para o Parque Nacional dos Picos da Europa. Embora muito virada para o turismo, é uma localidade pequena e até pacata fora da época alta, onde as vedetas maiores são a ponte “romana” (data do séc. XIII, mas supõe-se que remonta à época romana) sobre o rio Sella e a igreja de Santa Cruz, com origens no período pré-românico e construída sobre um dólmen pré-histórico. Aproveitem para almoçar por aqui, que a tarde vai ser longa e em zonas (ainda) mais bucólicas.

 

O santuário de Covadonga fica a apenas 11 km e é o próximo local a visitar. A capela dedicada à Virgem, que é a padroeira das Astúrias há mais de 1300 anos, está situada numa gruta escavada na rocha e aberta para o exterior, por baixo da qual surge uma cascata. O complexo inclui um museu, jardins e uma grandiosa basílica, que data do séc. XIX e se destaca, com a sua cor alaranjada e telhados vermelhos, no meio da vegetação abundante.

Regressem pelo mesmo caminho até encontrarem, um pouco antes de Cangas de Onís, a estrada para Arenas de Cabrales, que fica a menos de 50 km de distância. Arenas ou Poncebos, cerca de 5 km mais à frente, têm uma vasta oferta de alojamento e são ideais como base para descobrir esta vertente dos Picos da Europa.

 

 

Dia 5 – Ruta del Cares

Para quem gostar, hoje é dia de fazer uma caminhada num dos percursos montanhosos mais fantásticos e mais acessíveis desta região. A Ruta del Cares estende-se entre Poncebos e Caín, num total de 12 km em cada sentido e, tal como o nome indica, acompanha parte do percurso do rio Cares. Começando em Poncebos, existe uma subida inicial algo exigente de pouco mais de 2 km, sendo o resto do caminho essencialmente plano e fácil de fazer, com passagens por túneis e pontes, e sempre com o rio por companheiro. Deixo um aviso: vão correr o risco de se apaixonarem perdidamente por esta paisagem e esquecerem qualquer cansaço – pelo menos até terem de parar. Caín é uma aldeia encastrada entre altos picos montanhosos, local perfeito para repouso e almoço antes de iniciarem o caminho de regresso. Todas as informações sobre o percurso estão disponíveis em Ruta del Cares.

 

Se não gostam de grandes caminhadas (ou não podem fazê-las), então sugiro que visitem a icónica aldeia de Bulnes. Não existem estradas mas é possível subir no Funicular de Bulnes, que parte também de Poncebos e sobe por um túnel escavado na montanha durante oito minutos até chegar perto da entrada de Bulnes. Esta aldeia isolada e minúscula tem uma população fixa de apenas 20 habitantes (que aumenta para 50 no Verão), mas é um ponto turístico muito frequentado e conhecido por oferecer belíssimas vistas para as principais elevações dos Picos da Europa, entre as quais se destaca o Naranjo de Bulnes (ou Picu Urriellu, em asturiano). Também é possível chegar a Bulnes a pé, mas o percurso é algo exigente.

 

No final de um dia fisicamente muito activo não há nada melhor do que uma boa refeição, e em Arenas de Cabrales um dos locais onde se come bem é o restaurante La Panera.

 (continua)

______________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 3
por Ana CB autora dos blogs Viajar. Porque sim.Gene de traça, e

A vida e outros acasos.
Participante no blog Aprender uma coisa nova por dia

 

 
25
Mai16

Primavera nas Astúrias

Inominável

Agora que os dias começam a ser mais compridos e o tempo está menos agreste, é a altura ideal para ir à descoberta de uma das mais bonitas regiões da nossa vizinha Espanha: as Astúrias. 
O Principado das Astúrias localiza-se no norte de Espanha, entre a Galiza e a Cantábria. Com um território que excede os 10.000 km2 e abrange costa marítima, zonas montanhosas e cidades com história, e à distância de menos de um dia de carro, é a região perfeita para quem gosta de umas férias variadas.
Deixo-vos aqui a minha sugestão de roteiro para uma viagem de carro pelas Astúrias durante uma semana.

Roteiro Astúrias.jpg

 

 Dia 1 – Viagem até Gijón

Gijón 1.JPG

Gijón é a segunda cidade das Astúrias em importância, mas a maior em número de habitantes. Situada junto ao mar e a apenas 28 km de Oviedo e 30 de Avilés, as duas outras principais cidades das Astúrias, é por isso excelente como base para visitar parte da região sem necessidade de andar a mudar de alojamento com frequência. São 525 Km a partir do Porto e 800 a partir de Lisboa, por isso o primeiro dia vai ser ocupado com a viagem até Gijón. Parem em Salamanca para descontrair e almoçar, e aproveitem para dar um passeio pela Plaza Mayor e até à Catedral. Em Gijón, recomendo o Hotel Arena, que está muitíssimo bem situado e tem uma óptima relação qualidade-preço, além de ter parque de estacionamento privado, o que é sempre uma mais-valia para quem vai de carro.

 

Dia 2 – Gijón-Avilés

Reservem a manhã para passear a pé em Gijón. Sigam pela avenida que bordeja a Playa de San Lorenzo e vão até à Plaza Mayor. Visitem as Termas Romanas de Campo Valdés. Passem pela Igreja de San Pedro e subam até ao Cerro de Santa Catalina para ver a paisagem deslumbrante e a descomunal escultura de Chillida “Elogio ao Horizonte”. Regressem pelo mesmo caminho, ou então desçam pelo outro lado do Cerro para ver a escultura “Nordeste” de Joaquín Vaquero Turcios e o porto desportivo. Novamente na avenida marginal, passem a ponte sobre o Rio Piles e continuem junto ao mar pelo Paseo del Rinconín até ao Monumento a la Madre del Emigrante, de Ramón Muriedas. A seguir peguem no carro e vão até ao Parque la Providencia, no Cabo San Lorenzo, de cujo miradouro vão poder ter uma visão ampla da cidade de Gijón e deste pedaço da costa asturiana. A não perder.

 

 

Depois de almoço sigam para Avilés, a cerca de meia hora de carro. Visitem o centro histórico, com as suas ruas de pedra colorida em vários tons, a antiquíssima Igreja dos Padres Franciscanos (do período românico), o arrojado Centro Niemeyer, o edifício da Câmara Municipal (Ayuntamiento) na Plaza de España, ou o cemitério de La Carriona, com os seus elaboradíssimos jazigos.

 

 

Dia 3 – Oviedo

Oviedo é a capital das Astúrias e também o ponto de partida para descobrir alguns dos monumentos pré-românicos desta região. Mas para já deixem o carro no estacionamento da Plaza de la Escandalera e passeiem um pouco a pé pela cidade, que tem muitos motivos de interesse. Vão até catedral gótica, com origens no séc. XIII, depois sigam andando para sul e passem pela Igreja de San Isidoro até chegar ao Mercado El Fontán na rua com o mesmo nome. Em frente ao Mercado, a Plaza del Fontán e lá dentro a colorida Casa Ramón, a única parte original desta pequena praça que comunica com as ruas limítrofes por arcadas. É em torno da Plaza que se realiza um mercado ao ar livre às quintas, aos sábados e aos domingos. Por aqui vão encontrar muitos restaurantes e “sidrerias”, e quando forem horas de almoço escolham qualquer um deles e peçam uma “fabada” (que é uma feijoada à moda das Astúrias) acompanhada de sidra, a bebida típica da região, servida (“escanciada”) pelos empregados de uma forma muito particular: o braço que segura a garrafa é passado sobre a cabeça, enquanto a mão que tem o copo é colocada o mais abaixo possível. Regressem ao carro passando pela Universidade. Durante o passeio vão encontrar inúmeras estátuas, umas mais clássicas e outras mais arrojadas: desde a “Gorda” de Botero à “Mafalda” (personagem de Quino), passando pela que homenageia Woody Allen ou pela “Regenta” que está em frente à Catedral, elas são um excelente e original pretexto para um percurso a pé (vejam o percurso completo e todas as informações em Descubre Oviedo a través de sus estatuas.

 

 

 

E está na hora de iniciar a rota do pré-românico. Ainda dentro da cidade, parem primeiro na Foncalada, uma fonte de água potável que remonta ao séc. IX, e depois na igreja de San Julián de los Prados, o maior monumento pré-românico ainda conservado. Subindo para o Monte Naranco, vão encontrar primeiro o palácio/igreja de Santa María del Naranco, e um pouco mais à frente a igreja de San Miguel de Lillo, bela e isolada no meio de um prado rodeado de árvores. 

 

 

Continuem depois a subir até ao topo do monte, onde se situa o monumento ao Sagrado Coração de Jesus e de onde se oferece uma panorâmica privilegiada sobre Oviedo – no centro da qual se destacam as formas arrojadas e brancas do Palácio de Congressos Princesa Letizia, obra monumental e polémica de Santiago Calatrava.

(continua)

______________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 3
por Ana CB autora dos blogs Viajar. Porque sim.Gene de traça, e

A vida e outros acasos.
Participante no blog Aprender uma coisa nova por dia

 
23
Mai16

Tendências de A a Z

Inominável

A primavera já chegou com ela surgem algumas dúvidas, principalmente na forma como devemos utilizar as cores que são tendência. Escolhi o amarelo para este artigo e pergunto-vos como usavam um blazer amarelo?! As possibilidades são imensas, mas nem sempre o fazemos da forma mais acertada; deixo-vos algumas ideias do que devem e não devem fazer.

001.png

 

A TER EM CONTA:

• O amarelo é uma cor que chama a atenção
• Procurem a tonalidade certa, vejam se combina com a vossa pele; há vários tipos de amarelo, como o limão, o bebé, o ouro e muito mais

 

PARA FAZER SOBRESSAIR:

• Não tenham medo de arriscar, misturem com vestidos ou pérolas
• Calças de ganga ou calças brancas ficam sempre bem

 

GAFE FASHION:
• Cuidado com cores muito vivas, não as misturem com amarelo
• Vestir com roupas desportivas


COMO USAR:
• Conjuguem com branco, cinzento, preto, verde oliva ou azul petróleo
• Saias, calções, calças ou vestidos, os blazers ficam bem com tudo.

 

ONDE COMPRAR:

• Mango

 

 

Gostam de amarelo?
Têm alguma peça desta cor?

 ______________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 3
por Sofia Silva autora do blog La Principessa

 

 
20
Mai16

Palavras Cruzadas

Inominável

PC Inomável 3 Primavera.tif
(para preenchimento on line clique na grelha) 

 

HORIZONTAIS: 1- Primavera ou andorinha (figurado e poético). 7- Produz som. 10- Tornar a cair. 11- Prefixo (sobre). 12- Do feitio de ovo. 13- Véu. 15- Suspiro. 16- Que nunca será esquecido. 18- Duzentos e um em numeração romana. 19- Espreita. 20- Inaugure. 22- Redução de maior. 23- Soltar a voz (a andorinha). 25- Antes do meio-dia. 27- Pairo. 28- Canoa estreita, de remos, leve e rápida, de uso nos desportos aquáticos. 30- Imposto sobre o Valor Acrescentado (abrev.). 31- Prosseguir após interrupção. 33- Um prazer de quem gosta de livros. 34- Falta de progresso.

VERTICAIS: 1- A parte dianteira do navio. 2- Corrigi. 3- Vazia. 4- Relativo à Gália ou à França e à Igreja Francesa. 5- Letra grega correspondente a n. 6- Deserto. 7- Perceber por meio de qualquer dos sentidos. 8- Decidir-se por. 9- Embarcação típica de Sesimbra. 14- Empregar os símbolos de nobreza em. 17- Terceira nota musical. 18- Furar em muitos pontos. 20- Estante para suporte de livros ou pautas de música, abertos para leitura. 21- Que dura pouco. 22- Símbolo de miliampere. 24- Na parte exterior. 25- Fileiras. 26- Simples. 29- Base aérea portuguesa. 32- Extraterrestre.

______________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 3
da autoria de Paulo Freixinho (Palavras Cruzadas)
(as soluções serão dadas a pedido)

 
19
Mai16

A minha Feira do Livro de Lisboa #2

Inominável

Hoje é impossível ler um livro sem conhecer o rosto do autor ou autora. São uma espécie de pop stars das redes sociais e demais meios de comunicação, participam em eventos (literários e não só) e sessões fotográficas, aparecem constantemente para que os seus livros não sejam esquecidos no meio da avalanche literária. E eu pergunto-me, quando passeio na minha Feira, e os observo, sentados nas mesas, de caneta na mão, se o escritor, criatura que se isola, como um bicho no seu buraco, para fazer nascer palavras de ideias, gosta de estar naquela espécie de montra, competindo por leitores no meio da confusão de gente que compra livros pelos tops e pelas capas (nada contra mais uma vez, há capas que são belas obras de arte), com música (demasiado) alta, sem esquecer a voz roufenha da senhora (sempre a mesma) que anuncia a localização exacta (nem sempre) de tudo o que está a acontecer e do que ainda espera os visitantes.


Sim, eu visito a Feira ao fim-de-semana, ou de que forma saberia isto tudo senão por observar e participar da confusão? E continuarei a fazê-lo. Mas confesso que a minha Feira é melhor durante a semana. E sabem porquê? Porque consigo ver os livros em paz, sem empurrões e sofreguidões. Sim, o objectivo é ver os livros, às vezes até nos esquecemos disso, com tanta festa, tanto balão, tanta criança a correr e a gritar, que o que interessa são os livros!

 

Gosto de passear com calma nas tardes de semana, investigar escrupulosamente os caixotes dos descontos e ficar feliz quando aparece aquele livro fantástico por três euros. Não me importo se a edição é mais antiga ou se a capa está marcada pelo tempo, há descobertas que são as relíquias das minhas Feiras do Livro. Vejo com calma os livros do dia, dizendo olá a quem os vende, sorrindo a quem se cruza comigo, tomando notas das possibilidades desse dia, para mais tarde lapidar os excessos (ou o que tenho que considerar como tal por limitações orçamentais), e levar para casa os felizes seleccionados.


Por vezes a estadia prolonga-se. Nos últimos anos a Hora H anima as noites de semana das dez às onze, e grupos de leitores sedentos de descontos começam a chegar pelas nove e meia da noite. Marcam-se encontros, dividem-se famílias por causa das filas, há quem transporte os novos tesouros em malas de rodinhas, dado o peso das páginas resgatadas.

IMG_5120.jpg

 

A minha família de dois não fica em casa e parte para essa odisseia literária de lista no bolso. Prioridades estabelecidas, um guarda lugar na fila (coisa feia e tão portuguesa), enquanto o outro, habitualmente eu, procura os tesouros desejados. Torna-se mais divertido juntando famílias, as de sangue e as de coração, unidas pelo gosto da leitura e a paixão pelos livros. É uma hora que passa depressa, em que se corre e ri, que chega ao fim sem ter sido suficiente e que pede que se volte. E volta-se, claro, que as listas não têm fim, e nunca se regressa a casa de mãos a abanar.

 

Gosto da Feira solitária, em que sou dona do tempo e dos espaços que visito. Gosto de caminhar imaginando como será ler os livros que levo no saco, e de me sentar algures quando a curiosidade é tanta que começo a ler logo ali. E fico lendo, por vezes sentada na relva, mastigando palavras e levantando os olhos em observações pontuais. Tiro fotografias de memória e guardo no álbum da minha Feira traços de outros leitores. Há um velhinho desgrenhado com quem me cruzo todos os anos, normalmente à noite. É muito magro e corcunda, os cabelos não usam tesoura e evitam o pente, os dedos, tortos e retorcidos pela artrite, procuram livros que enchem um carrinho de compras que sobe (e desce) o Parque aos solavancos. Imagino-o a viver numa casa velha como ele, feita de livros. Estantes a abarrotar, livros no chão, nas escadas, livros a sair pelas janelas. Sigo-o e à chiadeira das rodas gastas, e continuo a procura infinita, a busca por novas descobertas, o prazer de olhar, tocar e escolher livros. Por vezes meto-me nas conversas de leitores indecisos, opino e sugiro, aconselho e ouço pareceres. Partilho o sorriso cúmplice da compra recente com rostos desconhecidos, contudo solidários no prazer imenso da aquisição de um livro novo.

 

Os meus passos atravessam as quatro estações do ano. Primavera, Verão, Outono e Inverno estão sempre presentes na Feira do Livro. Não há ano que não chova nem ano que não se sufoque nas tardes de sol. Não é estranho levar no saco um panamá e um leque, já cheguei a usar galochas e sandálias no mesmo ano. O vento também vai e no ano passado até houve um mini-tornado. Os livros não foram pelo ar (e ainda bem) mas já me aconteceu levar com um chapéu de sol na cabeça. Não é susto que se deseje, garanto.
Por todas estas razões e mais umas quantas que agora não lembro, espero ansiosa por mais uma Feira do Livro. Os planos são os mesmos, uma monótona rotina repetida ano após ano, que adoro. Quero voltar aos piqueniques com amigos, tertúlias de livros com o lanche que cada um leva e partilha. Estendemos a manta habitual e deixamos a tarde passar, veloz, pela conversa descontraída sobre as últimas leituras. Fazemos a pilha dos livros preferidos e aumentamos a pilha dos desejos em anotações nos cadernos. As listas imensas doem no tempo sempre escasso para ler, mas o prazer das linhas lidas, mesmo que poucas, enriquece-nos os dias, os meses, os anos.

IMG_6274.jpg

A Feira do Livro de Lisboa está quase a começar e eu já estou pronta. Desde o ano passado.

______________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 3

por Márcia Balsas, autora do blog Planeta Marcia

 
18
Mai16

A minha Feira do Livro de Lisboa

Inominável

A minha Feira do Livro é só minha. Não façam essa cara que eu sei que chega para todos. Mas a Feira que eu guardo,  a Feira que eu espero sempre com ansiedade, aquela em que passeio, sozinha ou com amigos, a que trago para casa nos sacos de livros comprados e no coração, é minha. Só minha.

IMG_5270.jpg

A Feira nunca está realmente pronta a começar no primeiro dia. Ou porque ainda não chegaram os livros a algumas barraquinhas (agora diz-se stands mas eu não quero saber), ou porque não há multibanco, ou porque não há luz. Sim, lembro-me de um ano em que não havia luz, para compensar chovia copiosamente. Que fui para lá fazer, perguntam-me?  A sério? Ainda acham necessário fazer essa pergunta? Como não ir, se a Feira começou?

 

A Feira deixa-me saudades desde o dia em que termina. Padeço de sentimentos nostálgicos até ao primeiro dia da Feira seguinte. A melancolia da festa dos livros assalta-me muitas vezes, e, mesmo no dia mais frio do Inverno, sou levada pelo desejo de voltar ao Parque. Imagino o caminhar acima e abaixo, a animação nos rostos, os sorrisos conhecidos com quem me cruzo sempre, todos os anos.
O cheiro das farturas surpreende-me a memória, que a Feira tem prazeres além dos livros, e eu gosto de partilhar um doce com um amigo, no meio da partilha das pechinchas do dia. Com canela e muito açúcar, peço eu, com os olhos brilhantes da gulodice contida no resto do ano. Os cristais de açúcar colados aos lábios lembram-me que nenhuma fartura me sabe tão bem como aquela, que a Feira não pode acabar sem que ceda mais uma vez (e outra) ao pecado da gula, que só é amargo o sabor da fartura que ficou por comer, prometida, mas não cumprida. Esquecida por quem a havia de ter comido comigo.

IMG_5117.jpg

Gosto de ir logo no primeiro dia. Mas vendo bem, não é uma questão de gosto, é por não aguentar não ir. Como faltar, se a Feira já começou? No primeiro dia janta-se no meio dos livros, num ritual de amigos especiais, bebe-se a primeira ginja e fica-se até ao fim, a ver, lá do topo, a noite a cair no Parque. 

Agora, que a ansiedade desacelera a contagem decrescente, os dias que faltam são os que custam mais a passar, por serem cada vez menos. Preparo as listas de desejos, faço as contas aos meses de publicação e um cálculo aos possíveis descontos, e invento espaço para os livros que hão-de habitar as estantes.
Em 2016 teremos dezanove dias de Feira. Teremos três fins-de-semana de dias longos para assistir com mais tempo a lançamentos e todo o tipo de eventos. Em relação aos eventos, tenho que admitir que, se calhar, a diversidade começa a ser demais. Desde que vi, no ano passado, uma sessão de penteados em plena Feira, pergunto-me qual o interesse deste tipo de apresentações. Acho que não é preciso arranjar o cabelo em público para promover livros de penteados (nada contra livros de cabelos, até li um excelente este ano), ou levar a cozinha para o recinto em espetáculos de show cooking (lá vem o estrangeirismo, como se não tivéssemos nós vocabulário suficiente) para divulgar livros de receitas. E as sessões de autógrafos, claro, a par com os lançamentos dos livros são quase a nova Modalidade Olímpica. Nada contra, vou a todos os que posso, na Feira e fora dela, mas confesso, a título de segredo, e muito baixinho para que ninguém me ouça, que tenho saudades de desassociar o livro de quem o escreveu.

IMG_6315.jpg

 (continua)

______________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 3

por Márcia Balsas, autora do blog Planeta Marcia

 
16
Mai16

Sim, era verdade.

Inominável

Era verdade quando me diziam que bom, bom era ser criança. Era verdade quando me diziam que não devia ter pressa para ser adulto, que ser adulto era uma treta e era muito melhor ser criança. Era verdade quando me diziam que ser adulto implicava ter muitas responsabilidades. Sim, era verdade.

 

Mas não era verdade quando me diziam que quando fosse adulto não poderia brincar. Posso. As brincadeiras já não são as mesmas mas continuamos a poder brincar. Aquelas brincadeiras com carrinhos ou com Barbies voltamos a ter quando temos um filho, o objecto em si depende do gosto dele mas seja com o que for reavivamos a memória e sentimo-nos felizes, nostálgicos.


Não era verdade quando me diziam que tinha de aproveitar a escola ao máximo quando era criança porque em adulto já não ia conseguir aprender nada. Aprendo todos os dias uma coisa nova, seja sobre contabilidade, uma palavra nova noutra língua ou até mesmo a lidar com um certo tipo de pessoa ou com uma situação. Há sempre coisas a aprender e nunca estamos velhos – isto foi uma das coisas que percebi em adulta e todos os dias tenho vontade de aprender ainda mais.


Não era verdade quando me diziam que a lei da vida era Estudar – Namorar – Trabalhar – Casar – Ter Filhos para ser feliz. Sou feliz e a minha vida foi mais Estudar e Namorar – Ter Filhos – Trabalhar.

street-1026246_1920.jpg

São coisas que acontecem e foi a melhor coisa que me aconteceu. Como devem calcular, sou bastante feliz assim. Há dias maus, claro, mas isso todos temos.Não era verdade quando me diziam que só com uma licenciatura ou algo mais alto é que iria conseguir emprego. Nem o 12º ano tenho concluído, e em pouco mais de um mês de procura arranjei emprego; como era em part-time, quando quis arranjar um segundo emprego arranjei-o em duas semanas. O meu irmão esteve quase dois anos à procura de emprego e já tinha a licenciatura tirada quando começou a procura, e digamos que a nota que teve não é nada má, o curso é dos que supostamente mais empregabilidade tem e a universidade é das melhores do país. Por isso, ter a licenciatura ou um grau académico mais elevado pode ajudar em alguns casos, mas nem sempre é o principal.

 

Não era verdade quando me diziam que devia falar sempre que achasse que algo não estivesse correcto. Há alturas em que mais vale ficarmos calados e fingirmos que não se passa nada, para não sairmos prejudicados de forma directa ou indirecta. Se não conseguirmos de forma alguma ignorar o que se passa, temos bom remédio: quem está mal, muda-se. Não era verdade quando me diziam que bastava querer e lutar para conseguir tudo o que queria, tudo o que sonhava. Pode haver casos que se consegue apenas por mérito próprio, mas agora entre adultos podemos ser sinceros, quem tem cunhas tem a vida muito mais facilitada e por vezes nada faz para conseguir o que muitos também tanto desejam e pelo qual trabalham durante anos sem ver resultado algum.

kids-143022_1920.jpg

E sim, também era verdade quando me diziam que só quando crescesse é que ia perceber o que era ter problemas a sério e perceber qual era a razão de tanta preocupação por parte dos adultos; muito sinceramente, preferia voltar ao tempo em que não fazia ideia do que se passava lá fora no mundo dos adultos e em que problema sério era a mãe chegar a casa e ver que tínhamos estado a jogar à bola dentro de casa ao encontrar algum objecto partido. Era tão bom ser criança. Era tão bom poder recuar nos anos e voltar a viver tudo de novo, com a única diferença de aproveitar ainda mais a infância que tive.

______________________________________________________________________

Publicado em Inominável nº 3
por A Miúda, autora do blog A Miuda

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Arquivo

  1. 2016
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2015
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D